Ayrton Senna, rei da América

Data:
15 de outubro de 2025

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Tempo de leitura:

8 minutos

A Fórmula 1 vem ganhando cada vez mais projeção nos Estados Unidos, com 3 provas do calendário disputadas no país – e uma renovação de audiência para abraçar novos públicos. Entre os jovens da Geração Z, 6 em cada 10 se conectam com o piloto, segundo dados de pesquisa realizada em abril de 2025.

Nos EUA, Senna confirmou sua hegemonia: em seis temporadas, entre 1986 e 1991, o brasileiro venceu cinco das seis provas disputadas nos EUA. Ao contrário de seu recorde em Mônaco, esta hegemonia foi conquistada em dois circuitos diferentes (1986 a 1988 em Detroit e 1990 e 1991 em Phoenix). Além disso, Senna também venceu nos Estados Unidos com duas equipes diferentes. Nas duas primeiras vitórias, em Detroit, com a Lotus, e nas três seguintes, com a McLaren.

A única exceção neste período de seis anos foi o GP dos Estados Unidos de 1989, o primeiro disputado em Phoenix. Senna fez a pole position, a melhor volta da corrida e liderava com relativa tranquilidade até sua McLaren apresentar falhas elétricas – com o abandono do brasileiro, a vitória ficou com Alain Prost, seu companheiro de equipe.

O status de “Rei da América” na F1 foi iniciado com Senna em uma de suas corridas mais memoráveis. Em Detroit, no GP dos Estados Unidos de 1986, pela primeira vez na F1, o piloto fez um gesto que seria imortalizado sempre em suas vitórias: levantar a bandeira do Brasil na volta de celebração.

Foi uma forma de Senna passar aos brasileiros uma mensagem de alegria após um dia de tristeza no esporte pela eliminação na Copa do Mundo de futebol de 1986, perdendo nas quartas de final nos pênaltis pela França. O piloto falou sobre este gesto em entrevista ao Roda Viva ao final daquele ano:

“No dia anterior, eu acabei de fazer a pole e quando entrei no box, o jogo estava Brasil 1×0 França. Eu saí do carro e fui direto pro hotel para ver o jogo. Meu projetista é francês, meus mecânicos são franceses…Conclusão, depois do jogo, eles me alugaram, claro, porque o Brasil perdeu. E por uma grande felicidade, eu venci a corrida no dia seguinte. Tinham muitos brasileiros na corrida em Detroit e, quando terminei, eu estava exausto, foi uma corrida dura fisicamente, e eu vi um brasileiro atrás da cerca e vi ele com a bandeira brasileira. Foi por instinto: eu fiz sinal e o fiscal do meu lado não entendia. Mas aí ele viu o torcedor, me viu e foi lá pegar a bandeira e trouxe para mim e pude dar a volta toda com ela. Foi muito especial”, disse Senna.

Assim como em Mônaco, o circuito de rua exigia uma tocada ainda mais precisa dos pilotos, já que, como no Principado, em Detroit ou Phoenix, um erro na curva significaria batida e abandono na mesma hora. Em 1987, Senna largou em segundo lugar e conquistou a vitória novamente com a Lotus, com o novo design amarelo – foi a primeira vitória de um carro utilizando suspensão ativa na F1.

O domínio de Senna nos Estados Unidos seguiu em sua fase na McLaren, com a terceira vitória consecutiva no desafiador circuito de Detroit – um recorde jamais alcançado, já que a pista sairia do calendário da F1 no ano seguinte. O impressionante triunfo nos Estados Unidos, com 38 segundos de vantagem sobre Prost, em segundo, e uma volta sobre Thierry Boutsen, o terceiro, também ajudou Senna a conquistar seu primeiro título mundial de F1 em 1988, com um feito inédito de oito vitórias no mesmo ano, um recorde até então.

A F1 voltou aos Estados Unidos em 1989 em uma nova pista, nas ruas de Phoenix, em uma região árida do Arizona. O desgaste dos carros foi a marca da primeira prova, que teve diversos abandonos   – incluindo o de Senna, que havia feito a pole, a melhor volta e liderava a corrida. Mas, depois deste revés, o brasileiro emendou duas vitórias, coincidindo também com a abertura de suas jornadas rumo a conquista de títulos mundiais.

Em 1990, Senna largou na quinta colocação e precisou fazer uma prova bastante ousada para conseguir galgar as posições até a ponta. É nesta corrida inclusive um de seus duelos mais intensos na pista, com a jovem promessa Jean Alesi, da surpreendente Tyrrell. Senna passou o francês, mas ele rapidamente deu o troco e recuperou a liderança. Senna teve que “caprichar” na manobra depois, “fechando a porta” para impedir o ataque de Alesi por dentro na curva seguinte.

Ayrton Senna
Foto: Norio Koike

Foi a abertura da temporada daquele ano, que terminou com a conquista do bicampeonato. E a escrita se valeu novamente em 1991, com nova vitória de Senna na abertura da temporada da F1 em Phoenix, desta vez saindo da pole position.

A vitória abriu também uma sequência histórica de conquistas de Senna, com quatro triunfos nas quatro primeiras provas da temporada, um recorde até então – entre elas, a emblemática vitória no GP Brasil, contando apenas com a sexta marcha nas voltas finais em Interlagos.

Rei da América

Com cinco vitórias em seis anos, Senna se estabeleceu como o “Rei da América” e não teve seu posto ameaçado nos anos seguintes, já que, a partir de 1992, o GP dos Estados Unidos saiu do calendário da F1. O retorno só aconteceria novamente em 2000, com um circuito misto montado dentro do tradicional oval de Indianápolis.

Em 1992, inclusive, Senna chegou a testar um carro da Indy no circuito de Firebird, no Arizona, ao final daquela temporada, em um encontro promovido por Emerson Fittipaldi e sua equipe, Penske. Em entrevista ao Senna TV, Roger Penske, dono do time, revelou a profunda admiração a Senna e que teria sido incrível para o esporte ver o brasileiro competindo na tradicional 500 Milhas.

Com novos fãs conhecendo mais sobre F1 com séries como “Drive to Survive” e “Senna”, ambas sucessos internacionais na Netflix, o reinado de Ayrton Senna na América seguirá sendo celebrados por muito tempo e por milhares de fãs do esporte.

As vitórias de Ayrton Senna nos Estados Unidos

22 de junho de 1986 – Detroit (largou da pole)

21 de junho de 1987 – Detroit (largou em segundo)

19 de junho de 1988 – Detroit (largou da pole)

11 de março de 1990 – Phoenix (largou em quinto)

10 de março de 1991 – Phoenix (largou da pole)

Por Rodrigo França, para o site Senna.com, de Austin, Texas.

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